
“Quando Chico Buarque leu “Órfãos do Eldorado”, de Milton Hatoum, não teve dúvida: “Esse cara copiou meu livro”. Hatoum, porém, havia publicado bem antes de “Leite derramado” chegar às prateleiras, ao que Chico concluiu: “Então ele me copiou e publicou mais rápido”. Diante de Hatoum, na última mesa da Flip da sexta-feira (3), o compositor acabou por reconhecer que a culpa só caberia a si mesmo. “Eu sou inocente”, declarou Chico. Foi um das muitas piadas que os dois autores, apesar de tímidos, fizeram durante o encontro.
As coincidências entre os dois, não somente relacionadas às duas obras, são várias, como lembrou o mediador, o crítico literário Samuel Titan Jr. Ambos estudaram arquitetura, começaram a publicar na maturidade e estavam ali para debater sobre a quarta obra de suas vidas, nos dois casos relatos breves.
As semelhanças entre os livros de fato são muitas: há um narrador já velho e uma figura feminina ambígua. A certa altura, a trama de Chico menciona a mesma Manaus de Hatoum. “Quando li essa passagem sobre Manaus, fiquei me perguntando como você chegou a essas informações”, explicou Hatoum. Chico respondeu com mais uma piada: “Usamos o mesmo google”.
Hatoum disse que havia pedido ajuda a uma sobrinha em Manaus para descobrir histórias de falcatruas de intendentes do começo do século. “Pedi umas duas histórias, minha sobrinha me apareceu com 26.”
Chico contou que conhecia um pouco de história por ouvir seu pai, o historiador Sergio Buarque de Holanda, e não exatamente por ler seus livros. “Papai gostava muito de fofocas também.””
*Matéria publicada em O Livreiro, onde a íntegra pode ser conferida.