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Posts Tagged ‘ana cristina cesar’

Vi na Bravo! deste mês e fiquei com a alma em alvoroço.

UM NAVIO NO ESPAÇO OU ANA CRISTINA CESAR

Diretor: Paulo José

Roteirista: Maria Helena Kühner

Elenco: Ana Kutner e Paulo José

Duração: 75 minutos

Descrição: Com cerca de 90% do texto extraído de poemas, prosa, cartas e diários de Ana Cristina César, o espetáculo traz à tona sua busca, suas angústias, suas inquietações e seus enigmas. Espelhos suspensos multiplicam e distorcem as imagens projetadas, sugerindo um puzzle. O palco se projeta como extensão do tampo de uma mesa: uma estação de trabalho com livros, mídias dos anos 70, laptop e caderno de anotações. O videografismo e a animação simulam a produção em tempo real de desenhos, manuscritos e originais feitos na máquina de escrever, o processo febril de criação da poetisa.

Bárbara Heliodora escreveu:

Poesia e teatro fluem como se fossem feitos um para o outro

O maior mérito da dramaturgia de Walter Daguerre, sobre texto de Maria Helena Kühner, na criação de “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar” é a habilidade com que se escapa do monólogo sem botar na boca da poeta palavras de outros: o diálogo que se estabelece entre o leitor admirador que começou como antagonista na área da televisão é onírico, feito de indagações provocadas pela leitura, de uma curiosidade sobre os mistérios que não têm mais, para esclarecê-los, a jovem autora que se foi. O resultado dessa intimidade intelectual é um texto de papo entre amigos, no qual a palavra dela é sempre autêntica, mesmo que sempre exatamente adequada à condição de réplica ao que é dito por ele, com deleitável fluência; melhor ainda, esse diálogo inteligente não é pomposo, tem a simplicidade da segurança de quem não tem e nem sente necessidade de provar nada a ninguém, de quem transita livremente pelo universo do pensamento, da cultura em sua melhor e mais ampla concepção.

A encenação desse mundo muito particular é solucionada com o mesmo despojamento buscado pelo texto: o cenário de Fernando Mello da Costa sugere o desprendimento, a indiferença aos ícones do sucesso, sem deixar de ressaltar o prazer pelo risco, pelo intenso mas fortuito. A simplicidade da cenografia fixa é completada pelo vídeo, e raramente ou nunca os dois elementos foram tão bem integrados, formando um todo apto a acompanhar as complexas peripécias do mundo de Ana Cristina César, com a luz de Paulo César Medeiros completando a integração.

Relação entre pai e filha beneficia o espetáculo

A direção de Paulo José nasce de seu conhecimento e sua admiração pela obra de Ana Cristina, descoberta feita depois da época na qual com ela brigava na televisão. Ele transpõe para o pequeno ambiente no novo teatro do Oi Futuro de Ipanema essa amorosa intimidade intelectual que a leitura criou, e é óbvio que tudo ficou ainda mais fluente e informal graças a outra intimidade, a do diretor/ator com sua protagonista/filha Ana Kutner.

O nível da interpretação é privilegiado em função da admiração de diretor/ator e atriz pela obra de Ana Cristina; as indagações são todas autêntica sede de mais e mais compreensão da obra, enquanto as citações das respostas saem todas como falas espontâneas, verdadeiras, provocantes quando é necessário que o sejam. Enfim, “Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar” é um espetáculo inteligente e encantador, com méritos na forma e no conteúdo, pois texto e interpretação se unem para uma ótima experiência teatral, que muito merece o nosso aplauso.

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PALAVRAS

Golpes
De machado que fazem soar a madeira,
e os ecos!
Ecos partem
Do centro como cavalos.

A seiva
Jorra como lágrimas, como a
água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido por ervas daninhas.
Anos depois as encontro
Na estrada —

Palavras secas e sem rumo,
Infatigável bater de cascos.
Enquanto
Do fundo do poço estrelas fixas
Governam uma vida.

(Tradução: Ana Cristina César!!!)

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Tenho um folha branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma cama branca
e limpa à minha espera:
mudo convite

tenho uma vida branca
e limpa à minha espera:

Ana Cristina Cesar, em Inéditos e Dispersos

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“Querida Clarice:

Que impressão me deixou o seu livro!
Tentei exprimi-la nestas palavras:

– Onde estivestes de noite
   que de manhã regresseis
   com o ultra_mundo nas veias
   entre flores abissais?

– Estivemos no mais longe
   que a letra pode alcançar:
   lendo o livro de Clarice,
   mistério e chave do ar.

Obrigado , amiga! O mais carinhoso abraço de admiração do

                                                                                                                         Carlos”

O Carlos é aquele, o Drummond. A carta, sobre o livro clariceano Onde estivestes de noite. O texto foi retirado do catálogo da exposição sobre ela no Museu da Língua Portuguesa. Como não tive a oportunidade de ver a exposição, me contentei com o livreto (fotos e textos lindos!) que adquiri numa ida a Sampa.

Publico aqui a carta porque ela transborda uma, digamos, “supra-intimidade”, que acontece no encontro leitor-obra. É aquele momento que você olha o texto e pensa que ele poderia ser seu.

ESTE LIVRO

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade que você seduz, charmeaur volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça.
E cante.
Puro acúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar (de Aos Teus Pés)

Queria que fosse meu.

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