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Posts Tagged ‘carta’

“Dois e dois são quatro. Tudo certo como dois e dois são quatro”, ela ia pensando no quadrado perfeito, cantarolando, consertando a música. De errado já bastava o dedinho do pé ser troncho, incomodar dentro do tênis batido, latejar ao final do dia de 14 horas seguidas na ativa – metrô, soneca em pé, enjoo, encostadas, sacolejo.

Trabalho, olhares, desvios, trabalho. As pilhas de envelopes no carrinho de metal, que empurrava diariamente dentro da repartição, repartiam (e ela pensava que esse joguinho de palavras era até bom), o corpo dela em dois: a cabeça à mostra; todo o resto coberto por papéis brancos, selos, exemplares de revista, contas, correspondências de bancos – papéis como almas penadas: nada lhe diziam, e diziam muito para eles todos, sentados nas caixinhas menores de uma caixa bem maior: era, era mesmo uma repartição.

Não tinha ciência: dr. Andrade sempre recebia as cartas mais gordas – pra ele carta era igual a dinheiro. Os bolinhos vinham amarrados naquelas borrachas amarelas. Ela nunca soube dar aquelas voltinhas pra que as notas ficassem arrumadinhas. Dr. Andrade sabia como ninguém, naquele mundinho de cada-um-com-sua-cabeça-enfiada-na-sua-cova. E ela sabia de outra coisa. Quer dizer, ela costumava fazer um joguinho toda manhã que, de tanto repetir, acabou por acreditar piamente: quando não viesse pacote para dr. Andrade ela receberia uma carta de amor.

Era batata, ela pensava. Dois e dois são quatro. Não veio dinheiro, virá carta de amor.

O percurso completo dentro da grande sala com pequenas caixinhas com gente dentro e seus computadores e seus espirros e seus assentos durava mais ou menos 40 minutos. Descia, enchia o carrinho novamente, envelopes gordos não cessavam, vinham aos montes. Sim, o método da cobrança de porta em porta parecia estar surtindo efeito para a empresa.

De boys eram chamados os camaradas que faziam o mesmo trabalho que ela. Mas ninguém a chamava de girl. Ela era a “ei, psiu”, “bom dia tarde noite”, “faz favor” – atolada até o pescoço com remetentes e destinatários, ela não tinha nome. Como receberia uma carta de amor sem identidade, endereço? Só sabia daquilo: não chegando dinheiro, era carta de amor na certa.

Dia 25 de agosto Dr. Andrade não foi. Era meio doente, tinha asma, crise, filhos levaram para o médico. A cadeira vazia do caixa dava uma esperançazinha. Ele não veio, as cartas gordinhas viriam pra quem, se não pra ele? Ela, já com o dedo troncho incomodando, tênis, calça jeans, camiseta branca básica, pensava: “Nem me vesti para a ocasião. A carta vai chegar e eu vou estar assim, toda assim”.

No elevador, o carrinho de metal estava mais leve. Ela também estava. Sabia, sabia que era hoje, as palavrinhas de alguém dizendo que a esperava, TV desligada, o vinho posto, o cheiro do molho em cozimento, a cama intacta, aquele som pra amaciar o coração, o silêncio na vizinhança, era o quadrado perfeito.

Ela tentou disfarçar, desviou o olhar, bebericou o café, mas Danilo, parceiro de menorzinho no canto da repartição, alfinetou: ela estava em suspensão. Tinha alguma coisa, sim, tinha alguma coisa que a estava deixando sem o pé no chão, respiração entrecortada, excitação. “É a carta de amor que receberei hoje”, disse, sem titubear, suspendendo os ombros. Danilo, meia-idade, dois anos de empresa, fez um muxoxo, queimou a língua no líquido quente, engasgou: era a ponte quebrada

– Você acredita mesmo em carta de amor?, a língua ainda incomodando, o coração mais ainda, pensou no poema. Cartas de amor eram ridículas.

– Eu acredito em mim. E no amor. Sei que a carta vai chegar porque Dr. Andrade não veio hoje.

A relação entre Dr. Andrade e a carta de amor Danilo não haveria de saber.

Terminaram o cafezinho em cinco minutos, longos, longos para ele, ansiosos para ela. Na volta do intervalo era a hora de recarregar o carrinho, renovar a esperança e olhar com carinho cada envelope. Qual teria a cara dela?

Dois maços bem vultosos de dinheiro interromperam a tarde esperançosa. Envelopes pardos. Sem cor, sem firulas, para o destinatário usual. “Dinheiro não tem nada a ver com amor, minha Nossa Senhora!” gritava ela, em silêncio, dentro do redemoinho que tinha sido jogada depois das notas de 50 e 100.

Metrô, soneca em pé, enjoo, volta pra casa.

Manhã, metrô, soneca em pé, repartição.

Dr. Andrade melhorara, tinha somente uma tossezinha renitente. Os primeiros envelopes do dia, claro, para ele. Centenas e centenas de outras correspondências em profusão deslizavam pelas mesas dos funcionários, a mão da entregadora trêmula, cansada, o coração batendo de teimoso, a rotina um gorila nas costas.

Não foi nem no início nem no final da pilha que o envelopezinho laranja reluzia. No meio, bem na metade de quilos e quilos de papel, a carta brotara, como numa iluminura, para chegar à dona dela, à sua destinatária, o peito em alvoroço. “Matilde”, estava escrito. E ela percebeu que alguém sabia seu nome. Dinheiro já havia chegado. Como podia?

Escrito assim: “Essa é a minha carta de amor. Cafezinho hoje de novo? D.”

Ela pensou, como um clarão: ainda bem que hoje vim com meu vestido favorito.

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“Querida Clarice:

Que impressão me deixou o seu livro!
Tentei exprimi-la nestas palavras:

– Onde estivestes de noite
   que de manhã regresseis
   com o ultra_mundo nas veias
   entre flores abissais?

– Estivemos no mais longe
   que a letra pode alcançar:
   lendo o livro de Clarice,
   mistério e chave do ar.

Obrigado , amiga! O mais carinhoso abraço de admiração do

                                                                                                                         Carlos”

O Carlos é aquele, o Drummond. A carta, sobre o livro clariceano Onde estivestes de noite. O texto foi retirado do catálogo da exposição sobre ela no Museu da Língua Portuguesa. Como não tive a oportunidade de ver a exposição, me contentei com o livreto (fotos e textos lindos!) que adquiri numa ida a Sampa.

Publico aqui a carta porque ela transborda uma, digamos, “supra-intimidade”, que acontece no encontro leitor-obra. É aquele momento que você olha o texto e pensa que ele poderia ser seu.

ESTE LIVRO

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade que você seduz, charmeaur volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça.
E cante.
Puro acúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar (de Aos Teus Pés)

Queria que fosse meu.

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