Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘cinema’

“Todos os grandes filmes são melodramáticos! Há um preconceito arraigado contra o melodrama por parte das mentes ditas intelectualizadas que precisa ser desmontado, desfeito. Hitchcock, em “Marnie”, elevou o melodrama à condição de obra de arte. Há momentos de melodrama nas cenas entre o protagonista e Susan Alexander em “Cidadão Kane”. Os importantes filmes de Vicente Minnelli, o estilista mais sofisticado do cinema, são melodramas, como Assim estava escrito (The bad and the beautiful, 1953), “Deus sabe quanto amei” (“Some came running”, 1958), “Adeus às ilusões” (“The sandpiper”, 1964), entre muitos outros. “Casablanca” e …”E o vento levou” são momentos sublimes de grande melodrama. Infeliz do filme que não tenha inserido nele elementos melodramáticos! Talvez o cinema brasileiro não tenha se firmado como indústria por causa da virose cinemanovista, que tinha preconceito com o melodrama”.

Texto completo de André Setaro no Terra Magazine.

Anúncios

Read Full Post »

Cláudio Leal. Belíssimo! No Terra Magazine.

André Setaro e o negativo da memória

“Eisenstein me perdoe”. André Setaro dedilha um cigarro do bolso da camisa. “Não aguento mais rever o Encouraçado Potemkin. Quando aparece aquele marinheiro gritando com a mão na boca, eu já fico a favor dos oficiais”. Risos enevoados no parapeito da Faculdade de Comunicação (Ufba), em Salvador. “Apresento aos alunos: é uma obra-prima. E venho fumar aqui fora”. Barba de trotskista exilado, expressão rubra, a ironia apontada para dentro, Setaro profana o clássico soviético como quem esconde a devoção de quatro décadas a uma cachoeira de imagens.

Os recortes de velhos artigos, empilhados em seu apartamento durante os anos de batucadas diárias na máquina Olivetti, se condensam nos três volumes de “Escritos sobre cinema – trilogia de um tempo crítico” (Azougue/Edufba). Esse patrimônio de coragem intelectual e de erudição ainda se sustenta numa dignidade rara nos ofidiários do jornalismo. Contra as vilezas provincianas, Setaro formou quatro gerações de leitores em sua coluna na Tribuna da Bahia, onde analisou os clássicos, as obras-primas nascentes, as pencas de lançamentos de Hollywood e, porque não é pecado, o corpo de Brigitte Bardot. Desde 2007 ele é colunista de Terra Magazine.

Fundador do Clube de Cinema, em 1950, o advogado e ensaísta Walter da Silveira iniciou a formação de uma cultura cinematográfica na Bahia, irradiada pelas sessões do Cine Guarany, onde fazia romaria o jovem Glauber Rocha. A partir da década de 1970, Setaro passou a cumprir essa missão, desta vez como solitário herdeiro da “responsabilidade humana e social” da crítica, defendida por Walter da Silveira. Ele superou o mestre no conhecimento da linguagem cinematográfica, da estética, da montagem, do “específico filmíco”: a sintaxe que move o cinema e o autonomiza diante de outras artes, a manipulação humana capaz de tornar Lillian Gish (a atriz dos filmes de D.W. Griffith) em algo mais que o regador dos irmãos Lumière.

De André Bazin, o extraordinário crítico do Écran Français e dos Cahiers du Cinéma, Setaro extraiu o rigor da análise e a certeza de que “todos os filmes nascem livres e iguais”. Bazin é um herói para os que amam o cinema, não somente por ter desbravado uma linguagem à procura de reconhecimento, mas também por salvar François Truffaut do desamparo de um reformatório. Num paralelo menos dramático, André Setaro salvou a nós outros, desgarrados do centro do Brasil, de uma ignorância monumental da história do cinema, nos tempos pré-download.

Dizia Truffaut, em 1955, que nenhum “enfant de France” sonharia em ser crítico de cinema quando crescesse (ele trataria de assassinar a própria frase). Em sentido contrário, os textos e a personalidade de Setaro estimulavam os alunos a ambicionar a ginástica da crítica. O resultado tanto podia ser um amontoado de pedantismos quanto o início de um interesse sincero pelo estudo do cinema. Setaro sabe identificar os dois tipos de alunos. Não concebe um espectador sem escolhas afetivas, impulsos, paixões. E assim exerce o jornalismo: devoto do papel, da tinta pregada nos dedos. Há quatro anos, infartado, ele convocou uma ambulância. A pontada mais violenta nasceria nos minutos seguintes, ao lembrar-se que seu artigo seria publicado, naquele sábado, no caderno cultural de “A Tarde”. Sob o risco de morte fulminante, desceu à banca de revista, pagou o jornal e subiu a ladeira para esperar o médico.

O relicário de paixões se enrosca no passado. Morte de Marlon Brando, em 2004. Passo uma semana à espera de sua coluna, e apenas silêncio. Telefonema: “Setaro, quando sai o necrológio?”. Brota uma voz macia: “Não consegui. Vou lhe dizer a verdade: ainda não me recuperei”. No hospital, outra vez infartado, ele aguarda uma cirurgia. Por desgraça astrológica, Antonioni e Bergman morrem no mesmo dia: 30 de julho de 2007. Peço aos amigos para lhe preservarem da tragédia. Entro no quarto, Setaro levanta a mão direita, inconsolável: “Bergman e Antonioni morreram!”. Um espírito de porco lhe dera a notícia por telefone.

“Godardiano” educado pelas leituras “antigodardianas” do crítico do Correio da Manhã, Antonio Moniz Vianna, Setaro sustenta o anúncio da morte do cinema. Melhor dizer: um certo tipo de cinema. Nenhuma de suas teses provoca mais irritação do que esta de enterrar o cinematógrafo. Se provocado, ele desdobra com a morte do humanismo, como fez numa conversa:

– O cinema que morreu, na verdade, é o dos grandes inventores de fórmulas. Cristalizada a linguagem cinematográfica em meados dos anos 60, a sintaxe se tornou estilo de cada realizador, sem contar, evidentemente, os artesãos que apenas ilustram um roteiro. A formação pelo cinema, a educação sentimental pelo cinema e a educação pelo cinema acabaram. Neste sentido, o de formador de público, o cinema está morto e enterrado.

Sem distanciar-se da imprensa, André Setaro carregou o cinema aos bares de Salvador, no aprendizado de Jeniffer Jones e cerveja, de Luis Buñuel e cigarro, os “recuerdos” precedidos de uma sentença: “Concordo com Buñuel: o homem é a sua memória”. Nas mesas, a arte estava inseparável dos fracassos da vida que poderia ter sido, e foi. Homem de obsessões machadianas, Setaro é essencialmente memorialístico. A crítica não ocorre em sua vida como um acidente, mas uma reflexão do seu desprezo ao tempo. Na forma silenciosa com que observa as pessoas, o desejo de retê-las para sempre.

A imposição da lembrança como prazer e dor, que o aproxima da obra de Alain Resnais, empurrou-o uma tarde à sua Marienbad, a casa da infância no bairro de Nazaré: reviveu o corredor imenso, as correntes e o cheiro do ar condicionado do Cine Guarany, o jambo da antiga Faculdade de Filosofia, a banca de Seu Paranhos, as árvores, a Igreja do Sagrado Coração de Jesus, a figura do Padre Lemos. A casa resistia, apesar das esquadrias de alumínio. Inspirado pelo escritor Pedro Nava, descreveu uma outra vez cada detalhe do antigo Cinema Pax, na Baixa dos Sapateiros. “Escritos sobre cinema” recompõe André Setaro no exercício da crítica e da memória. O que prevalece é a trajetória de um olhar, o mesmo que insiste em retornar aos corredores da infância, ainda inviolado pelo primeiro filme de Catherine Deneuve.

Serviço:

Lançamento dos 3 volumes de Escritos sobre cinema, a trilogia de um tempo crítico.

Caixa com 3 volumes: R$60,00. Venda avulsa de cada livro: R$23,00

Na Saladearte do Cinema do Museu, dia 13/abril, às 20h.

Endereço: Av. Sete de Setembro, 2595, Corredor da Vitória – Museu Geológico

Tel: (71) 3338 2241

Read Full Post »

Pra colocar na agenda e comparecer!

Read Full Post »

Ô historinha boa de ler logo pela manhã. Texto completo lá no Terra Magazine.

André Setaro
De Salvador (BA)

“1) Luiz Carlos Barreto, numa longa entrevista à TV Senado, que passou recentemente, conta a sua trajetória de homem de cinema e, lá pelas tantas, fala de Dona Flor e seus dois maridos, o maior sucesso de bilheteria de todos os tempos baseado em romance homônimo de Jorge Amado e dirigido por seu filho, Bruno Barreto. O ano, 1976, a ditadura militar exercia poderosa censura sobre todos os filmes. E implicou com “Dona Flor”. Queria proibi-lo. Barreto foi à Brasília tentar convencer os censores, mas tudo em vão.

2) De repente, ao sair de um ministério, encontra, por acaso, Amália Lucy, filha de Ernesto Geisel, o general de plantão, a quem se atribui o dito de Chico Buarque de Holanda (“você não gosta de mim, mas sua filha gosta”). Barreto já conhecia Amália, e ela, surpresa, perguntou o que ele estava a fazer em Brasília. O produtor disse a ela que Dona Flor e seus dois maridos tinha sido proibido pela censura. Mas por quê? indagou a filha do general, que manifestou desejo de ver o filme.

3) Barreto marcou um encontro numa sala de exibição brasiliense e projetou “Dona Flor” para Amália Lucy. No final, ela revelou a ele ter gostado muito do filme e não via razão para ser proibido. E disse a Barreto: “Quem gostaria muito de ver seria meu pai, pois ele gosta dos romances de Jorge Amado” O célebre produtor, surpreso, ia dizer alguma coisa, quando ela o interrompeu: “Você não conhece meu pai. Vamos marcar uma sessão no Palácio do Planalto. Marcada a exibição, Barreto entrou meio constrangido para projetá-lo para Geisel e encontrou uma sala toda equipada para a sessão especial, com farta distribuição de ‘scotch’ e salgadinhos”.

Read Full Post »

“(…) O fato inconteste é que a era dos grandes inventores de fórmulas do cinema acabou e está bem enterrada. Mas é preciso que a nova geração, cujo conhecimento cinematográfico, se muito, se concentra mais nos anos 90 e, pouco, nos 80, precisa, urgentemente, se quiser compreender o cinema contemporâneo, voltar-se para o passado para entender as contribuições daqueles filmes essenciais, aquelas obras que provocaram choques estéticos quando foram apresentadas.

É preciso que se veja, mas ver e rever com um olhar investigatório e, mesmo, se for o caso, arqueológico: O encouraçado Potemkin e Outubro, de Sergei Eisenstein, Aurora (Sunrise), de Friedrich W. Murnau, A paixão de Joana D’Arc, de Carl Theodor Dreyer, Luzes da cidade, de Charles Chaplin, Cidadão Kane, de Orson Welles, Roma, cidade aberta, de Roberto Rossellini, Ladrões de bicicleta, de Vittorio De Sica, Rocco e seus irmãos, de Luchino Visconti, Rastros de ódio, de John Ford, Morangos silvestres, de Ingmar Bergman, a trilogia A aventura/A noite/O eclipse, de Michelangelo Antonioni, Histórias de Tóquio, de Yasujiro Ozu, Os melhores anos de nossas vidas, de William Wyler, Hiroshima, mon amour e O ano passado em Marienbad, de Alain Resnais, Acossado, de Jean-Luc Godard, Deus e o diabo na terra do sol, de Glauber Rocha, Assim estava escrito, de Vincente Minnelli, Cantando na chuva, de Stanley Donen/Gene Kelly, Crepúsculo dos deuses, de Billy Wilder, Os brutos também amam (Shane), de George Stevens, Crônica de um verão, de Jean Rouch e Edgar Morin, Retrato de mulher, de Frtiz Lang, A regra do jogo, de Jean Renoir, Um punhado de bravos, de Raoul Walsh, Pickpocket, de Robert Bresson, Um corpo que cai, de Alfred Hitchcock, Matar ou morrer, de Frerd Zinnemann, Contos da lua vaga, de Kenji Mizoguchi, A roda da fortuna, de Vincente Minnelli, Meu tio, de Jacques Tati, A condessa descalça, de Joseph L. Mankiewicz, Johnny Guitar, de Nicholas Ray, Sedução de carne, de Luchino Visconti, Oito e meio, de Federico Fellini, Lola Montès, de Max Ophuls, O mensageiro do diabo, de Charles Laughton, Palavras ao vento, de Douglas Sirk, O sétimo selo, de Ingmar Bergman, Cinzas e diamantes, de Andrdzej Wajda, Onde começa o inferno (Rio Bravo), de Howard Hawks, entre muitos e muitos outros.

Para se ter o prazer de se tomar, em alta tensão, alguns choques estéticos”.

Texto completo no Terra Magazine.

Read Full Post »