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Posts Tagged ‘conto’

Mimica

Era alguns minutos depois de regadas as plantas do quintal que ela mergulhava os dedinhos na areia úmida, enchia a mão em concha e levava até a boca. Sempre quase no mesmo horário, a mãe, austera e delicada, aparecia na porta, mangueira a postos, e fazia a folia de jasmins, rosas, alecrim, graxa, capim, mato, laranjeira, e até do pé de siriguela. Não tinha distinção.

Molhar as plantas era um ritual que Mimica acompanhava com se saciasse a sua própria sede. Quatro aninhos, se escondia entre uma planta e outra e observava o jato de água, amoroso, a bater, respingar, criar pequenos arco-íris no quintal cercado em parte por muro e em parte por arame.

Quando o banho matinal das plantas acabava – sempre durava por volta de 4 minutos – e a mãe dava as costas para o mundo de Mimica, ela se desembrenhava, corria para o centro do quintal, e a quentura adormecida na areia dali subia e conferia à terra um cheiro irresistível. A umidade era o recheio do bolo e Mimica aspirava a delícia, respirava fundo, a cabecinha virada pra cima, o sol cutucando a fronte.

Aí então, era batata: olhava ao redor e escolhia o pé de alguma planta. Chegava perto, agachava, os joelhos em contato direto com a terra, enchia a mão de um bocadinho e colocava na boca. A saliva se misturava com os grãos, a língua ficava meio perdida entre gosto de terra e de algo mais, e Mimica saciava a própria sede – ou seria fome? – colocando um pedaço do quintal na boca.

O ritual da mãe era um. O dela era outro. E, claro, era feito muitíssimo às escondidas, até porque – ela tinha apenas quatro anos, mas já percebia – ninguém fazia aquilo. Ninguém andava por aí metendo a mão na terra e colocando na boca. Mas tanta gente fazia tanta coisa que ela achava feio!

Jandir, pai de Tonico, vizinho de parede, vivia dando uns puxões de orelha sem tamanho no amiguinho que tinha sua idade. Ele chorava pra se acabar. Marta, amiga da mãe, sempre que a visitava, adorava dar uns apertões doloridos na bochecha de Mimica e ela não via adulto fazendo isso em adulto. André, seu irmão mais velho, várias vezes dizia que tinha lavado a mão para comer, sem ter lavado. E a mãe brigava tanto quando não lavavam as mãos antes de comer!

O que é que tinha ela comer um punhadinho de terra?

Manhã seguinte, mãe, mangueira, água, arco-íris, porta, meio do quintal, umidade, joelho no chão, mão em concha, punhadinho de terra, desejo…

– Mimicaaaaaaaa! O que é isso?! Onde já se viu colocar terra na boca?!

A mãe esbravejava. Mimica, os olhos voltados para o chão, ruborizava a cada repreensão e esfregava as mãozinhas sujas de terra, disfarçadamente, pensando em minimizar o flagra. Que criança comportada não faz isso, que a areia é coisa suja, que isso, que aquilo. O tempo de regar as plantas a mãe gastou multiplicado por dez só de carão. E no final da ladainha toda, quando até as plantas já estavam com pena de Mimica, a mãe resolveu perguntar o porquê.

– Tem gosto de siriguela, mamãe. E também gosto de rosa.

Mimica havia descoberto como ser árvore.

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Alice Ruiz e Caio Fernando, recebendo o prêmio Jabuti em 1988. Foto: Milton Michida

Alice Ruiz e Caio Fernando recebendo o prêmio Jabuti em 1988. Foto: Milton Michida

A foto – de dois que amo – é pra ilustrar o que fiquei sabendo através do Autores e Livros: saiu a lista dos concorrentes ao Jabuti de 2009.

Romance

1.º Flores Azuis (Cia. das Letras), de Carola Saavedra

2.º Cordilheira (Cia. das Letras), de Daniel Galera

3.º Órfãos do Eldorado (Cia. das Letras), de Milton Hatoum

4.º Galileia (Objetiva), de Ronaldo Correia de Brito

5.º Satolep (Cosac Naify), de Vitor Ramil

6.º Manual da Paixão Solitária (Cia. das Letras), de Moacyr Scliar

7.º A Parede no Escuro (Record), de Altair Martins

8.º O Livro dos Nomes (Cia. das Letras), de Maria Esther Maciel

9.º Um Livro em Fuga (Record), de Edgard Telles Ribeiro

10.º Heranças (Rocco), de Silviano Santiago

Contos e Crônicas

1.º Canalha! – Crônicas (Editora Bertrand Brasil), de Fabricio Carpinejar

2.º 101 Crônicas – Ungáua! (Publifolha), de Ruy Castro

3.º Ó Editora (Iluminuras), de Nuno Alvares Pessoa de Almeida Ramos

4.º Rasif (Record), de Marcelino Freire

Ostra Feliz Não Faz Pérola (Planeta), de Rubem Alves

5.º Os Comes e Bebes nos Velórios das Gerais e Outras Histórias (Auana), de Déa Rodrigues da Cunha Rocha

6.º Ping Pong – Chinês Por Um Mês: As Aventuras de Um Jornalista Brasileiro Pela China Olímpica(Manuela Editorial – Arte Paubrasil), de Felipe Machado

7.º Crônicas e Outros Escritos de Tarsila do Amaral (Unicamp), de Laura Taddei Brandini (Org.)

8.º Antologia Pessoal (Record), de Eric Nepomuceno

9.º Cheiro de Terra – Contos Fazendeiros (Scortecci), de Lucília Junqueira de Almeida Prado

O Silêncio dos Amantes (Record), de Lya Luft

10.º Vatapaenses Vasos Comunicantes (Gm Minister), de Sergio de Almeida Brun

Poesia

1.º Dois em Um (Iluminuras), deAlice Ruiz

2.º Chocolate Amargo (Brasiliense), de Renata Pallotini

3.º Antigos e Soltos: Poemas e Prosas da Pasta Rosa (Instituto Moreira Salles Instituto Moreira Salles), de Ana Cristina Cesar

4.º Cinemateca (Cia. das Letras), de Eucanaã Ferraz

5.º A Letra da Ley (Annablume), de Glauco Mattoso

6.º Homem Ao Termo – Poesia Reunida [1949-2005] (Editora da UFMG), de Affonso Ávila

Outros Barulhos (Reynaldo Bessa), de Reynaldo Bessa

7.º Geometria da Paixão (Anome Livros), de Dagmar de Oliveira Braga

8.º Os Corpos e Os Dias (Cultura), de Laura Erber

9.º Ferreira Gullar: Poesia Completa, Teatro e Prosa (Nova Fronteira), de Ferreira Gullar

Réquiem (Contra Capa), de Lêdo Ivo

10.º Uma Hora Por Dia (7letras), de Maria Helena Azevedo

Biografia

1.º José Olympio, O Editor e Sua Casa (G.M.T. Editores), de José Mario Pereira

2.º O Sol do Brasil (Cia. das Letras), de Lilia Moritz Schwarcz

3.º Anna: A Voz da Rússia Vida e Obra de Anna Akhmátova (Algol), de Lauro Machado Coelho

4.º O Santo Sujo: A Vida de Jayme Ovalle (Cosac Naify), de Humberto Werneck

5.º Caio Prado Júnior (Boitempo), de Editorial Lincoln Secco

6.º Domingos Sodré, Um Sacerdote Africano (Cia. das Letras), de João José Reis

7.º Cruz e Sousa – Dante Negro do Brasil (Pallas), de Uelinton Farias Alves

8.º Cancioneiro Chico Buarque (Jobim Music), de Elianne Canetti Jobim

9.º Traição (Cia. das Letras), de Ronaldo Vainfas

10.º Viver Sua Música: Com Stravinsky em Meus Ouvidos, Rumo À Avenida Nevskiy (Editora da USP), de Gilberto Mendes

Reportagem

1.º O Olho da Rua: Uma Repórter em Busca da Literatura da Vida Real (Globo), de Eliane Brum

2.º O Sequestro dos Uruguaios – Uma Reportagem dos Tempos da Ditadura (L&PM Editores), de Luiz Cláudio Cunha

3.º O Livro Amarelo do Terminal (Cosac Naify), de Vanessa Barbara

4.º Narrativas de Um Correspondente de Rua (Pós-Escrito – do Instituto Cultural de Jornalistas do Paraná), de Mauri König

5.º Rim Por Rim (Record), de Julio Ludemir

6.º Sem Vestígios (Geração Editorial Ltda), de Tais Morais

7.º No Calor da Hora: Música e Cultura nos Anos de Chumbo (Algol), de João Marcos Coelho

8.º Casadas com o Crime (Letras do Brasil), de Josmar Jozino

9.º Suicídio – O Futuro Interrompido (Geração Editorial), de Paula Fontenelle

10.º 1968 – O Que Fizemos de Nós (Planeta), de Zuenir Ventura

Tradução

1.º Satíricon (Cosac Naify), de Cláudio Aquati

2.º A Morte de Empédocles / Friedrich Hölderlin (Iluminuras), de Marise Moassaba Curioni

3.º 40 Novelas de Pirandello (Cia. das Letras), de Maurício Santana Dias

4.º Moby Dick (Cosac Naify), de Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza

5.º Porta do Sol (Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A.), de Safa A-C Jubran

6.º Poemata: Poemas em Latim e em Grego (Tessitura), de Erick Ramalho

7.º Os Irmãos Karamázov – 2 Vols. (34), de Paulo Bezerra

8.º Plotino, Enéada Iii. 8 [30]: Sobre a Natureza, A Contemplação e o Uno (Editora da Unicamp), de José Carlos Baracat Júnior

9.º O Diabo Mesquinho (Kalinka), de Moissei Mountian

10.º Contos Completos (Cosac Naify), de Leonardo Fróes

Teoria e Crítica Literária

1.º Monteiro Lobato: Livro a Livro (Editora da Unesp), de Lajolo, Marisa e Ceccantini, João Luís

2.º Pensamento e “Lirismo Puro” na Poesia de Cecília Meireles (Editora da USP), de Leila V. B. Gouvêa

3.º Literatura da Urgência Lima Barreto no Domínio da Loucura (Annablume), de Luciana Hidalgo

4.º Graciliano Ramos – Um Escritor Personagem (Autêntica), de Maria Izabel Brunacci

5.º Machado de Assis: Ensaios da Crítica Contemporânea (Editora da Unesp), de Guidin, Marcia Ligia – Granja, Lúcia – Ricieri, Francine Weiss (Orgs.)

6.º Contos de Machado de Assis: Relicários e Raisonnés (Associação Jesuita de Educação e Assistência Social), de Mauro Rosso

7.º Do Teatro: Machado de Assis (Perspectiva), de João Robeto Faria (Org.)

8.º Que Poesia É Essa? Poesia Marginal: Sujeitos Instáveis, Estética Desajustada (Editora da Universidade Federal de Goiás), de Teresa Cabañas

9.º A Segunda Vida de Brás Cubas (Rocco), de Patrick Pessoa

10.º A Gargalhada de Ulisses: A Catarse na Comédia (Perspectiva), de Cleise Furtado Mendes

Infantil

1.º Sete Histórias Para Contar (Moderna), de Adriana Falcão

2.º Comilança (DCL), de Fernando Vilela

3.º No Risco do Caracol (Autêntica), de Maria Valéria Rezende e Marlette Menezes

4.º Era Outra Vez Um Gato Xadrez (Record), de Leticia Wierzchowski

5.º Minhas Contas (Cosac Naify), de Luiz Antonio

6.º A História de Biruta (Cia. das Letras), de Alberto Martins

7.º Zoo (Nova Fronteira), de João Guimarães Rosa

8.º E Um Rinoceronte Dobrado (Projeto), de Hermes Bernardi Jr

9.º A Invenção do Mundo Pelo Deus-Curumim (34), de Braulio Tavares

10.º Alma de Rio (Cortez), de Ellen Pestili

Juvenil

1.º O Fazedor de Velhos (Cosac Naify), de Rodrigo Lacerda

2.º A Distância das Coisas (Edições SM – Grupo SM), de Flávio Carneiro

3.º Cidade dos Deitados (Cosac Naify), de Heloisa Prieto

4.º Montanha-Russa (Cosac Naify), de Fernando Bonassi

Surfando na Marquise (Cosac Naify), de Paulo Bloise

5.º 1808 – Edição Juvenil (Planeta), de Laurentino Gomes

6.º Brincos de Ouro e Sentimentos (Pingentes Biruta), de Luiz Antonio Aguiar

7.º Figurinha Carimbada (Girafinha), de Márcio Araújo

8.º Chuva de Letras (Scipione), de Luis Alberto Brandão

9.º Meu Pai Não Mora Mais Aqui (Biruta), de Caio Riter

10.º Conversa de Passarinhos (Iluminuras), de Alice Ruiz S / Maria Valéria Vasconcelos Rezende

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“Dois e dois são quatro. Tudo certo como dois e dois são quatro”, ela ia pensando no quadrado perfeito, cantarolando, consertando a música. De errado já bastava o dedinho do pé ser troncho, incomodar dentro do tênis batido, latejar ao final do dia de 14 horas seguidas na ativa – metrô, soneca em pé, enjoo, encostadas, sacolejo.

Trabalho, olhares, desvios, trabalho. As pilhas de envelopes no carrinho de metal, que empurrava diariamente dentro da repartição, repartiam (e ela pensava que esse joguinho de palavras era até bom), o corpo dela em dois: a cabeça à mostra; todo o resto coberto por papéis brancos, selos, exemplares de revista, contas, correspondências de bancos – papéis como almas penadas: nada lhe diziam, e diziam muito para eles todos, sentados nas caixinhas menores de uma caixa bem maior: era, era mesmo uma repartição.

Não tinha ciência: dr. Andrade sempre recebia as cartas mais gordas – pra ele carta era igual a dinheiro. Os bolinhos vinham amarrados naquelas borrachas amarelas. Ela nunca soube dar aquelas voltinhas pra que as notas ficassem arrumadinhas. Dr. Andrade sabia como ninguém, naquele mundinho de cada-um-com-sua-cabeça-enfiada-na-sua-cova. E ela sabia de outra coisa. Quer dizer, ela costumava fazer um joguinho toda manhã que, de tanto repetir, acabou por acreditar piamente: quando não viesse pacote para dr. Andrade ela receberia uma carta de amor.

Era batata, ela pensava. Dois e dois são quatro. Não veio dinheiro, virá carta de amor.

O percurso completo dentro da grande sala com pequenas caixinhas com gente dentro e seus computadores e seus espirros e seus assentos durava mais ou menos 40 minutos. Descia, enchia o carrinho novamente, envelopes gordos não cessavam, vinham aos montes. Sim, o método da cobrança de porta em porta parecia estar surtindo efeito para a empresa.

De boys eram chamados os camaradas que faziam o mesmo trabalho que ela. Mas ninguém a chamava de girl. Ela era a “ei, psiu”, “bom dia tarde noite”, “faz favor” – atolada até o pescoço com remetentes e destinatários, ela não tinha nome. Como receberia uma carta de amor sem identidade, endereço? Só sabia daquilo: não chegando dinheiro, era carta de amor na certa.

Dia 25 de agosto Dr. Andrade não foi. Era meio doente, tinha asma, crise, filhos levaram para o médico. A cadeira vazia do caixa dava uma esperançazinha. Ele não veio, as cartas gordinhas viriam pra quem, se não pra ele? Ela, já com o dedo troncho incomodando, tênis, calça jeans, camiseta branca básica, pensava: “Nem me vesti para a ocasião. A carta vai chegar e eu vou estar assim, toda assim”.

No elevador, o carrinho de metal estava mais leve. Ela também estava. Sabia, sabia que era hoje, as palavrinhas de alguém dizendo que a esperava, TV desligada, o vinho posto, o cheiro do molho em cozimento, a cama intacta, aquele som pra amaciar o coração, o silêncio na vizinhança, era o quadrado perfeito.

Ela tentou disfarçar, desviou o olhar, bebericou o café, mas Danilo, parceiro de menorzinho no canto da repartição, alfinetou: ela estava em suspensão. Tinha alguma coisa, sim, tinha alguma coisa que a estava deixando sem o pé no chão, respiração entrecortada, excitação. “É a carta de amor que receberei hoje”, disse, sem titubear, suspendendo os ombros. Danilo, meia-idade, dois anos de empresa, fez um muxoxo, queimou a língua no líquido quente, engasgou: era a ponte quebrada

– Você acredita mesmo em carta de amor?, a língua ainda incomodando, o coração mais ainda, pensou no poema. Cartas de amor eram ridículas.

– Eu acredito em mim. E no amor. Sei que a carta vai chegar porque Dr. Andrade não veio hoje.

A relação entre Dr. Andrade e a carta de amor Danilo não haveria de saber.

Terminaram o cafezinho em cinco minutos, longos, longos para ele, ansiosos para ela. Na volta do intervalo era a hora de recarregar o carrinho, renovar a esperança e olhar com carinho cada envelope. Qual teria a cara dela?

Dois maços bem vultosos de dinheiro interromperam a tarde esperançosa. Envelopes pardos. Sem cor, sem firulas, para o destinatário usual. “Dinheiro não tem nada a ver com amor, minha Nossa Senhora!” gritava ela, em silêncio, dentro do redemoinho que tinha sido jogada depois das notas de 50 e 100.

Metrô, soneca em pé, enjoo, volta pra casa.

Manhã, metrô, soneca em pé, repartição.

Dr. Andrade melhorara, tinha somente uma tossezinha renitente. Os primeiros envelopes do dia, claro, para ele. Centenas e centenas de outras correspondências em profusão deslizavam pelas mesas dos funcionários, a mão da entregadora trêmula, cansada, o coração batendo de teimoso, a rotina um gorila nas costas.

Não foi nem no início nem no final da pilha que o envelopezinho laranja reluzia. No meio, bem na metade de quilos e quilos de papel, a carta brotara, como numa iluminura, para chegar à dona dela, à sua destinatária, o peito em alvoroço. “Matilde”, estava escrito. E ela percebeu que alguém sabia seu nome. Dinheiro já havia chegado. Como podia?

Escrito assim: “Essa é a minha carta de amor. Cafezinho hoje de novo? D.”

Ela pensou, como um clarão: ainda bem que hoje vim com meu vestido favorito.

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Para quem perdeu a edição do projeto “Leitura Musicadas”, no Tom do Saber, na última sexta-feira, com o tema Nostalgia, aqui vai o conto de um grande amigo, Ricardo Sangiovanni, um dos textos lidos durante o evento:

A Ilha comprada

Braga, primavera – 2006

A revolução começará  em plena luz do dia, numa ilha comprada, com escritura e papel passado para o meu nome. Como esta, tantas incongruências foram as que ouvi sair da boca do meu pai. Desde sempre fora sempre sempre capaz de passar uma, duas, dez, dez mil, doze mil horas propagandeando seu plano para revolucionar o mundo. O plano não era nada sério, mas era bom – um tanto mais humano que o dos comunistas, um tanto menos mundano que o dos ultra-liberais. Um meio termo, com qualquer coisa de quase-anárquico. Incongruente: lindo, porém sem a menor sustentação teórica.

Teve efêmeras micro-existências (o plano), nas rodas de cerveja com os amigos, nas historinhas que ele me contava para dormir, nos monólogos que fazia para mim e para a mãe. Ele sempre empolgado, o dedo em riste tão peculiar dos políticos, dos demagogos, dos comentaristas das mesas redondas de futebol de domingo, dos honestos donos de loja botando para correr eventuais gatunos. O dedo em riste, o dedo em riste dos descobridores do Novo Mundo (supõe-se), dos torcedores do Santos xingando o treinador de burro; dos pais que educam e deseducam os filhos. O dedo em riste do primeiro homem da minha vida; a barba primeiro preta, depois cinza, depois branca. O dedo em riste, embora torto, do homem que por toda a vida chamei de pai. Inteligente, bem-feito. Um homem lindo. Até o último de seus dias, esteve lindo o meu pai.

Fui criada por ele sozinho, desde meus nove anos. Minha idade hoje não revelo, como bem faz toda mulher; já vou além dos trinta. E só: espero que isto minimize maiores especulações. Alguma atenção, se me quiserem doar, peço que o façam à nada incomum história que conto a seguir; nada especial, não fosse minha, a história.

Quando vim da China tinha por volta dos dezoito meses, não muito mais. Me exibia no colo – um trofeuzinho de rosto redondo, os olhinhos apertados todavida – a mulher a quem meses depois passaria inadvertidamente a chamar de mãe. Quem anos depois me abandonaria, a mim e a meu pai, numa manhã de domingo de sol. Sem Formula 1. Abandonaria, sim, mas disso não façamos um drama.

Uma mulher complicada a minha mãe. Aos doze, saíra de casa; lançada estava, para sempre, sem volta, como um vírus em curiosa simbiose na corrente sanguínea de um cão. Mundo-cão. Vira-latas, imundo. Ingrato. Injusto: o fora para com ela. Não compartilho, mas tanto compadeço-me disso que nunca me concedi o direito, pelo mínimo instante que fosse, de torna-la vítima de qualquer entre minhas mais espontâneas sentenças de condenação.

Porque condenada já  havia sido, já havia pago a pena letal tantas vezes, nos pegue-pagues primeiro de Barcelona, depois Murcia e mais não sei quantas cidades no caminho de quem sai da Espanha para a França e depois recruza a península até Portugal (pensem num caminho errante, de anos; pensem no que se pode considerar linear a quem pouco importa para onde ir depois de amanhã). Não tive tempo de ouvir dela os detalhes das histórias que me contou de passagem, antes de ir embora. Nunca insisti nos detalhes que ela me omitia – no fundo sentia que era por força da minha pouca idade. E tempo eu sabia que não nos iria faltar; meus ares de pequena sábia oriental desde cedo me traíram… Minha mãe foi embora e as perguntas que eu tinha, agora não passam de sementes para esses meus contos. Quase todos semi-escritos. Perguntas que proliferam-se em arquivos .doc, os títulos incertos, minhas vergonhas, minhas podas de mim. Inacabados. Impublicáveis os poucos acabados.

A mulher que sem escolha tomei por mãe era espanhola. Linda, os cabelos pretos muito pretos, nem sempre bem cuidados. Rebeldes (os cabelos). Rebeldes as vontades dela; dela herdei essa inquietude, essa violência contra o tempo, a força contrária que aprendi a exercer no ponteiro dos segundos, que simplesmente não me deixa querer ficar parada. Dela herdei o mal-hábito da ciesta; que parece preguiça, mas que no fundo é a astuta maneira espanhola de multiplicar as horas do dia. Entrecortado por uma boa dormida, um só dia espreme de si duas jornadas. Minha mãe acordava duas vezes por dia. Em cada uma das jornadas, trabalhava dobrado. Empregos foram tantos que enchem uma lista que não me espantaria se atingisse os cem: malabarista, entregadora de água, chofer de táxi, pizzaiola. Grafiteira, garçonete, DJ de festa infantil. Palhaça de circo, tradutora, acompanhante de palestrante, cozinheira de kebab… um rol que não termina.

Teve um fim de infância difícil. Adolescente, foi obrigada a pensar em conta de fim de mês, no troco que tinha que mandar para casa. Cuidar do irmão menor. Comer. Essas coisas. Cresceu mal-crescida. Por milagre terminou, três anos depois do prazo, um curso universitário de psicologia social, na França. Arranjou emprego, ganhou alguma grana. Mas cresceu mal-crescida. Virou mulher, casou-se duas vezes antes de conhecer o meu pai. Nunca saiu do limbo entre as idades mais complicadas da vida. Cresceu mal-crescida.

O primeiro casamento foi, até onde sei, um namorico. Um ano e pouca coisa mais, tempo só de arrumar e desarrumar as malas da mudança. Nunca teve muita coisa: todos os seus pertences sempre couberam em duas malas grandes. Nunca menos, nada mais. Casou-se de novo. Um francês. A este amou tanto e dele tão amiga se tornou que o casamento, depois de sete anos, desfez-se na curva precocemente descendente de um amor que envelhece; amores envelhecem, com isto concordo. Mas aos sessenta, não aos vinte e cinco.

Descasada do francês, conheceu meu pai numa noite banal, numa festa louca perdida por Portugal. Dele, então estudante de Língua e Cultura Portuguesa, herdei o idioma luso e a nacionalidade tropical. Da estranheza que sempre norteou os percursos de minha vida, creio que foi uma sorte que meu pai fosse brasileiro. Conheceram-se, os dois. Não mais que duas ou três noites de sexo de qualidade duvidosa, uma conversa semi-profunda, vários encontros entre esquinas e botequins. Meu pai queria revolucionar o mundo, aos 19. Minha mãe estudava chinês. Aos 30.

Do quase-ano que moraram na mesma cidade, este é o resumo pormenorizado. Minha mãe pretendia estudar ainda mais sete anos de chinês antes de se mudar para o oriente. Sete anos…

No ano seguinte já  estava instalada em Pequim. Com dois dias comprou uma bicicleta.

Com mais um ano na China, me comprou. A China não era nada daquilo que ela sonhava. Vivia de empurrar para trás os ponteiros do relógio. De cada segundo tirava um novo segundo. De cada dia mais um dia, de cada ano mais um ano. O ano seguinte seria sempre o ano do seu grande sonho. Seu grande sonho sempre mudava com o ano novo. Talvez não fosse assim tão grande. O tempo, mesmo dobrado, nunca lhe fora suficiente; multiplicá-lo sempre lhe fora possível (é possível, sim!); difícil era encontrar, entre o esforço que fazia para multiplicá-lo, alguma sobra de dia para ter, de fato, um grande sonho.

Sonhou com a China e lá foi parar. Sonhou não com a China, mas com algo que fosse diferente de tudo o que já tinha visto. Queria brilho, a tinta fresca de um cenário novo. Queria um pano de fundo chinês, vermelho e negro, enfeitado com dragões dourados. Só não sabia encenar outro esquete. Quis ir à China, à China foi. À China levou sua energia de vida, os velhos calos, as velhas confusões inconfessadas. Da China me trouxe nos braços, comprada a um casal enraivecido por ter sua quarta filha mulher. Me comprou barato, me trouxe como um troféu. Se mudou para o Brasil – sonhava agora em reencontrar aquel tio listo. El revolucionario, el guapo. Me trouxe para Santos. Bateu na porta do meu pai (até hoje ele não sabe como ela arrumou o endereço). Vine para quedarme.

Fica, então. Meu pai fazia mestrado. Tinha bolsa mas completava a renda trabalhando para um livreiro que tinha um sebo no shopping. Seu Eduardo, um barbudo. Boa gente, boa conversa. Não tinha ninguém (meu pai), mas tinha vontade de ter alguém. Aceitou, na melhor performance de sua generosidade, aquela espanhola maluca com um bebê chinês no colo. Minha mãe era muito mais velha que ele, mas como mulher nunca foi de se jogar fora – muito pelo contrário. Juntaram-se.

Nesta casa me criei, uma menina feliz até onde me lembro. Por vezes era duro saber não ser filha de um grande amor. Mas melhor assim: sempre soube sobre mim a verdade, e por isso sou muito grata aos meus pais. Meu pai, então, deu a essa minha cara oriental os ares de sabedoria que todos me dizem que tenho, hoje. Vivia incentivando minhas aventuras, meus desejos mais impossíveis. Eu e ele éramos, antes de pai e filha, dois grandes amigos. Herdei além do idioma, o gênio criativo, o gosto pelos livros, pelos esportes. Os sonhos. Nossa relação era divertida, educada, encaixada. Éramos duas crianças, dois amigos, dois adultos. Numa alternância contínua, numa sincronia da qual só nós tínhamos o ritmo. A figura de minha mãe resumia-se à imagem de uma gerente da casa, uma espécie de governanta: tinha doçura – me deu tanta doçura! –  mas nada que se aproximasse da doçura de uma mãe. Parecia não haver lugar para ela ali, entre meu pai e eu. Entre a intimidade entre meu pai e eu.

Não havia. Foi embora no dia em que completei nove anos.

Não fugiu nem deixou bilhete. Saiu pela porta da frente, sem dar muitas explicações, com as duas malas de sempre. Víamos o vôlei de praia na TV. Me deu um beijo demorado, um abraço forte. Feliz cumple, mi chinita. Beijou meu pai na testa, molhou-a com a clássica lágrima solitária. Ninguém senão ela conseguiria fazer uma coisa daquelas com tamanha serenidade. Parecia bem, em parte triste, mas sobretudo bem, bem convencida, quase hipnotizada pela idéia que seguro já vinha maturando meses antes de partir.

Nunca mais voltei a vê-la. Tantos anos sem chama-la de mãe, sem senti-la como mãe; mãe-ausente que fosse… nada. Não voltei a vê-la até hoje, até agora. Trancada aqui no escritório, acabo de vê-la, pela janela, descendo do carro. Gosto do corte do vestido preto – os anos lhe deixaram muito da antiga exuberância.

Meu pai morreu ontem, na madrugada. Na cama do hospital ainda me fez uma última piada. O dedo em riste, torto. Ri chorando.

Um discreto velório acontece agora na sala. Não quero ver ninguém. Não sou da família, não sou neta nem sobrinha nem prima nem tia de ninguém. Não me pareço com nenhum deles. Devo chamar minha mãe de mãe? Não quero. Sou filha de meu pai – me basta.

Vou embora. Viajar para a China, quem sabe.

Vou começar a revolução.

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