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Posts Tagged ‘drummond’

vazio em Lisboa
cheio de si-mesmos
caminha Pessoa

*Inspirado na poesia “Identidades do Poeta”, de Drummond, citada no post anterior.

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Retirada de http://www.codice.com.br“Visita a Murilo Mendes, doente. O casarão tem aparência de sanatório (é a proprietária que o lembra).  Fica entre árvores de um jardim malcuidado mas acolhedor. Largas escadas, grandes janelas e portas, muito silêncio. A velha dona da casa recebe-me com reserva, e só depois de minucioso interrogatório, metade em francês metade em português, é que me aponta o caminho: ‘No fundo do corredor, a porta com o retrato de Mozart…’

Murilo de pijama, andando pelo quarto, com o abatimento natural à doença, em que eu procuro não reparar, com o pudor ou a timidez que quase me faz pedir desculpas ao doente por visitá-lo no momento de sua inferioridade física. Disseram-me que estava liquidado, mas essa minha maneira de visitar os enfermos não me permite verificação a fundo, tão cruel mesmo quando motivada pelo interesse da amizade, e que outros fazem naturalmente.

Dou-lhe papel a assinar – a decisão do concurso de poesia estudantil de guerra, de que somos julgadores, e procuro falar-lhe, sem muito jeito, de coisas alheias à doença. Mas a doença está no quarto, entrando aqui e ali na conversa, por mais que eu a ignorasse. Murilo diz-me que as visitas lhe fazem um grande bem. Precisa de companhia, de contatos, pergunta se tenho feitos versos, anima-se quando lhe digo que o julgo sempre participante da vida, integrado nela, e que isso aconteceria mesmo que o trancassem incomunicável numa prisão”.

O relato data de 1943 e foi escrito por Carlos Drummond de Andrade. Esta e outras reminiscências estão contidas no livro “Prosa Seleta, Volume Único”, que tive a sorte de encontrar na promoção na Saraiva. De cento e conquenta e tanto por setenta reais. Além de crônicas, contos, aforismo, há uma espécie de diário do escritor que compreende o período entre 1943 e 1977. Fatos históricos, situação de bastidores do poder, encontro entre escritores, observações pessoais sobre os mais variados assuntos, tudo datado. Todos os textos selecionados pelo autor.

“(…)Se os leitores encontrarem nestas páginas o eco de um tempo abolido, terei resgatado a minha nostalgia e fornecido matéria para conversa de pessoas velhas e novas (…). Animou-me a ingênua presunção de que possam dar ao leitor um reflexo do tempo vivido de 1943 a 1977, menos por mim do que pelas pessoas em volta, fazendo lembrar coisas literárias e políticas daquele Brasil sacudido po ventos contrário. Fui, talvez, observador no escritório”.

Nada mal se inteirar um pouco da história, sentindo como se estivesse num sofá, proseando com Drummond.

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“Querida Clarice:

Que impressão me deixou o seu livro!
Tentei exprimi-la nestas palavras:

– Onde estivestes de noite
   que de manhã regresseis
   com o ultra_mundo nas veias
   entre flores abissais?

– Estivemos no mais longe
   que a letra pode alcançar:
   lendo o livro de Clarice,
   mistério e chave do ar.

Obrigado , amiga! O mais carinhoso abraço de admiração do

                                                                                                                         Carlos”

O Carlos é aquele, o Drummond. A carta, sobre o livro clariceano Onde estivestes de noite. O texto foi retirado do catálogo da exposição sobre ela no Museu da Língua Portuguesa. Como não tive a oportunidade de ver a exposição, me contentei com o livreto (fotos e textos lindos!) que adquiri numa ida a Sampa.

Publico aqui a carta porque ela transborda uma, digamos, “supra-intimidade”, que acontece no encontro leitor-obra. É aquele momento que você olha o texto e pensa que ele poderia ser seu.

ESTE LIVRO

Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two total, tilintar de verdade que você seduz, charmeaur volante, pela pista, a toda. Enfie a carapuça.
E cante.
Puro acúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar (de Aos Teus Pés)

Queria que fosse meu.

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