Feeds:
Posts
Comentários

Posts Tagged ‘manoel de barros’

Créd.: Stefan Hess

para Manoel de Barros

empunhando palavras
como sementes
à maneira de Mané

desaprendendo
em soletração
cada miúdo grão
da natureza

destreza
cantares

pela fresta
assobia a madeira
de amores com a quase ventania

desolhar
os galhos se chamegam
tal qual
a tua poesia
no meu peito

Tem entrevista dele lá na Cult.

Anúncios

Read Full Post »

Manoel de Barros na voz de Juca de Oliveira.
Escute aqui (é o terceiro na lista de récitas) e leia abaixo.

Gratuidade das aves e dos lírios

Sempre que a gratuidade pousa em minhas palavras,
elas são abençoadas por pássaros e por lírios.
Os pássaros conduzem o homem para o azul,
para as águas,para as árvores e para o amor.
Ser escolhido por um pássaro para ser a árvore dele:
eis o orgulho de uma árvore.
Ser ferido de silêncio pelo vôo dos pássaros:
eis o esplendor do silêncio.
Ser escolhido pelas garças para ser o rio delas:
eis a vaidade dos rios.
Por outro lado, o orgulho dos brejos
é o de serem escolhidos por lírios
que lhes entregarão a inocência.
(Sei entrementes que a ciência faz cópia de ovelhas
Que a ciência produz seres em vidros
Louvo a ciência por seus benefícios à humanidade
Mas não concordo que a ciência
não se aplique em reproduzir encantamentos).
Por quê não medir, por exemplo,
a extensão do exílio das cigarras?
Por quê não medir a relação de amor
que os pássaros têm com as brisas da manhã?
Por quê não medir a amorosa penetração
das chuvas no dentro da terra?
Eu queria aprofundar o que não sei,
como fazem os cientistas,
mas só na área de encantamentos.
Queria que um ferrolho fechasse o meu silêncio,
para eu sentir melhor as coisas increadas.
Queria poder ouvir as conchas
quando elas se desprendem da existência.
Queria descobrir por quê os pássaros escolhem
a amplidão para viver enquanto os homens
escolhem ficar encerrados em suas paredes?
Sou leso em tratagem com máquina;
mas inventei, para meu gasto,
um Aferidor de Encantamentos.
Queria medir os encantos
que existem nas coisas sem importância.
Eu descobri que o sol, o mar, as árvores e os arrebóis
são mais enriquecidos pelos pássaros do que pelos homens.
Eu descobri, com o meu Aferidor de Encantamentos,
que as violetas e as rosas e as acácias são mais filiadas
dos pássaros do que os cientistas.
Porque eu entendo, desde a minha pobre percepção,
que o vencedor, no fim das contas, é aquele que atinge
o inútil dos pássaros e dos lírios do campo.
Ah, que estas palavras gratuitas
possam agora servir de abrigo para todos os pássaros do mundo!

Manoel de Barros

Campo Grande, 27 de outubro de 1999

Read Full Post »

O circuito Sala de Arte informou que o documentário “Só Dez Por Cento é Mentira” entra em cartaz ainda esta semana. Não percam. Vale a pena ver a “desbiografia” de Mané de Barros. É sensacional.

Só Dez Por Cento É Mentira entra em cartaz às 18:50 no Cinema do MAM e às 19:30 no Cine XIV.

Read Full Post »

IV

No descomeço era o verbo.

Só depois é que veio o delírio do verbo.

O delírio do verbo estava no começo, lá onde a

criança diz:  Eu escuto a cor dos passarinhos.

A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor, mas para som.

Então se a criança muda a função de um verbo, ele

delira.

E pois.

Em poesia que é a voz do poeta, que é a voz de fazer

nascimentos –

O verbo ter que pegar delírio.

Manoel de Barros, in “O Livro das Ignorãças”.

Read Full Post »

de www.saraivaconteudo.com.br

Um filme sobre ele.

Uma desbiografia.

Dei uma suspirada, li a matéria da Saraiva Conteúdo, e saí com o coração coçando de vontade de ouvir a voz, as palavras, as mãos cortando o ar, na frente daqueles olhos escondidos.

Além do texto, tem dois trechos do filme . São lindos. Vejam!

Read Full Post »