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Posts Tagged ‘samba’

casa de samba cru
corpo nu
o samba é samba até a última hora

riso suspenso no ar
ijexá
quem rasga os raios lá fora?

suspende o mar
sacode pra lá e pra cá
desce o samba pro chão

dança quem tem cadência
o samba não tem ciência
é ritmo e ilusão

* O poema é de algum tempo atrás.  Republico porque senti vontade de comprar “Cachaça & Cabrochas”, gravação histórica de Cartola, lançado pela Biscoito Fino.

DVD CARTOLA E DONA ZICA – MPB ESPECIAL 1973 – TV CULTURA

Em 1973, acompanhado da mulher, Zica, e do Regional do Evandro, Cartola gravou um MPB Especial para a TV Cultura, dirigido por Fernando Faro, em que contou um pouco de suas histórias e relembrou algumas canções, com aquele jeito delicado que inspirou o poeta Carlos Drummond numa crônica: “Cartola sabe sentir com a suavidade dos que amam pela vocação de amar, e se renovam amando”. A Biscoito Fino tem o prazer de lançar agora o DVD desse programa.
Mas, mesmo já sendo o compositor de Divina Dama, Sim (com Osvaldo Martins)e O Sol Nascerá e Peito Vazio (ambas com Elton Medeiros), para citar apenas quatro das 14 composições deste DVD, Cartola ainda não havia gravado um disco solo. Isto só foi acontecer em 1974, quando já estava com 66 anos. Já era então uma dos maiores sambistas e leltristas da MPB, gravado por Carmen Miranda e Mário Reis e também já tinha no currículo a criação, com um grupo de amigos, da Estação Primeira de Mangueira. Foi quem escolheu o nome e as cores da escola.
Ele conta ao diretor do MPB Especial, Fernando Faro, que começou a compor com 16 anos, quando ainda trabalhava numa gráfica. Suas músicas têm história, como Infeliz Sorte: “Um dia apareceu lá no morro o Mário Reis, querendo comprar uma música. Estava com outro rapaz, que veio falar comigo. ‘O Mário Reis está aí e quer comprar um samba teu’. Fiquei surpreso: ‘O quê? Querendo comprar samba, você está maluco? Não vendo coisa nenhuma’. No dia seguinte ele voltou e me levou até o Mário Reis. Ele confirmou. ‘É, Cartola, quero gravar um samba seu. Fique tranquilo, seu nome vai aparecer direitinho. Quanto você quer por ele?’ Pensei em pedir uns 50 mil réis. O outro rapaz falou baixinho: ‘Pede uns 500 mil’. Eu disse: ‘Você está louco, o homem não vai dar tudo isso’. Com muito medo, pedi os 500 mil. Em 1932, era muito dinheiro. O Mário Reis respondeu: ‘Então eu dou 300 mil réis, está bom para você?’. Bom, ele comprou o samba mas não gravou. Quem acabou gravando foi o Chico Alves.”  Também vendeu para Francisco Alves a música Divina Dama: “Ele ouviu e ficou em cima”, explica.
Cartola fala da paixão pela Mangueira e relembra o restaurante Zicartola, com o qual ganhou, sobretudo, muitos amigos, e onde Paulinho da Viola recebeu o primeira cachê.
O MPB Especial tem até depoimento de Dona Zica: “Cartola e eu nos conhecíamos desde crianças, vivíamos ali no morro. Ele saía num bloco e eu em outro. Depois ele fundou a Mangueira e eu comecei a sair nela. Cartola casou-se com uma moça e eu também casei com outro rapaz. Saí do morro e ficamos muito tempo longe um do outro. Mais tarde eu fiquei viúva, ele também. Um dia nos reencontramos na casa da minha irmã. Ele jogou aquele papinho dele, eu também estava à toa, e daí estamos juntos até hoje”.
O DVD tem ainda as músicas: Samba da Mangueira, Fita os Meus Olhos (com Oswaldo Vasques), Quem me Vê Sorrindo (com Carlos Cachaça), Não Posso Viver sem Ela (com Alcebíades Barcelos), Ao Amanhecer, Amor Proibido, Acontece, Nós Dois, Bem Feito.

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martnália
Quando soube do relançamento, lembrei de um poema que havia feito no início deste ano.  Trago-o de volta para reavivar o sentimento que o samba desperta em mim.  Samba no pé, Mart’nália!

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Pra sambar um pouco mais, as informações da Biscoito Fino:

A Biscoito Fino tem o prazer de relançar o primeiro CD da cantora e compositora. Minha Cara, projeto originalmente lançado há 12 anos, já revelava a personalidade marcante da artista. No release distribuído na época, Mart’nália explicava quem era, do que gostava e as influências que sofreu. Aí está o que ela escreveu:

“Há muito tempo que sou uma profissional da música. Canto e componho, mas o que me sinto mesmo é músico. Desde menininha foi assim. Estudei piano clássico quatro ou cinco anos. Me dou bem com o violão. E a percussão brasileira para mim não tem segredo. Desde os 17 anos, quando comecei a acompanhar o meu pai, ficou difícil conciliar a vida artística com os estudos. Mas terminei o segundo grau, no ADN do Méier, e cheguei a me inscrever no vestibular de Comunicação. A experiência com o grupo que acompanha Martinho me facilitou as coisas, me ensinou muito – mas a relação pessoal e musical que desenvolvi com os instrumentistas independeu de tudo. Tornei-me amiga e parceira de muita gente e isso já não tinha mais nada a ver com o fato de eu ser a filha do Martinho. Músicos como Cláudio Jorge, Ivan Machado, Itamar Assière, Jorjão Barreto e Arthur Maia, para citar só alguns, não iam me dar tanta força, compor comigo, só por ser meu pai quem é. Aliás, este Minha Cara começou quase como uma brincadeira minha com o Ivan. Íamos juntos para o estúdio e ficávamos experimentando coisas, concepções musicais que não tinham nada a ver com o trabalho de Martinho da Vila. Até que entendemos que o que era simplesmente lazer e prazer podia ser transformado num projeto profissional. Não pense, no entanto, que estou minimizando a importância do meu pai no meu estilo ou na minha vida. Pareço com ele, tenho o jeito dele – nas vezes em que tentei ir contra essa minha natureza, senti-me ridícula. Então, resolvi assumir. Sou filha dele e isso é mais que evidente, só que ele tem vários outros filhos e nenhum é assim. O que faço é muito brasileiro e carioca, mas traz as influências do jazz e do funk que eu frequentava em Pilares, da MPB que eu ouvi sempre. As levadas, os arranjos, tudo reflete essa mistura. Obviamente, isso não desmerece as horas maravilhosas em que me extasiei com os pagodes na casa do Candeia, aos quais meu pai me levava pela mão, nem a eterna saudade que sinto de Clara Nunes”.

MINHA CARA, O DISCO

NÃO ME BALANÇA MAIS – É uma parceria com a psicóloga Viviane Mosé. Num belo dia ela me mostrou uma carta enorme que escreveu para um namorado. A carta tinha aquelas redundâncias que a gente comete quando está muito envolvida emocionalmente. Aí, comecei a resumir com ela o que a carta dizia. De repente me veio o refrão. Peguei o violão e saiu: “e você já não mais me balança/e você não me balança mais, não.”

CONTRADIÇÃO – Também em parceria com Viviane Mosé, focaliza a ambiguidade das relações amorosas. A indecisão entre a necessidade de ir embora e a vontade de ficar.

PRA QUÊ VOU RECORDAR O QUE CHOREI? – De Carlos Dafé. Está no mesmo caso da música do Cassiano. É outra música que me leva de volta aos tempos da infância e da adolescência.

GRANDE AMOR – Das mais de trezentas músicas gravadas do meu pai, é uma das que mais gosto. Pela beleza da melodia, pelo encadeamento dos versos.

CONTO DE AREIA – De Toninho Nascimento e Romildo, criação inesquecível de Clara Nunes. E o axé da Clara não podia estar ausente deste meu trabalho.

MINHA CARA – Foi a minha admiração pela Nana Caymmi que me levou ao Dudu Falcão. Ouvia a Nana e sempre tinha algo do Dudu lá, o que aguçava mais a minha curiosidade. Nos tempos do Batakotô, pude afinal conhecê-lo e, agora, tive o privilégio de ganhar dele a música que dá titulo ao CD.

COLEÇÃO – Esta música é do Cassiano, soulman brasileiro injustamente esquecido, que embalou muito a minha adolescência. Ela também é a minha cara.

A FLOR E O SAMBA – Talvez a melhor definição que eu conheça do que seja o samba. Melodia densa, versos diretos e claros. Candeia em estado puro: “o samba é a liberdade sem sangue e sem guerra/quem samba é de boa vontade e tem paz nessa terra”. Detalhe: a bateria é do Paulinho Black e Ovídio dá um banho na percussão leve.

PAREI NA SUA – O estilo do meu pai amadureceu muito, mas eu adoro os sambas bem simples e diretos que ele fazia quando começou. Como esse. O engraçado é que as gírias que ele usa aqui quase ninguém fala mais, mas ele usou-as tão bem que a linguagem do samba se mantém atual e o recado permanece.

TENTAÇÃO – Reparem na delicadeza da gaita do Rildo Hora, outro com quem aprendi muito durante o tempo em participei de várias gravações dos discos produzidos por ele para o meu pai. Esse auxílio luxuoso é um dos pontos fortes da música.

ENTRETANTO – De vez em quando, nas noites do Rio, cruzava com o Mombaça e ele cantava sempre essa música. Dizia para ele: “ainda vou gravar isso, mas queria que a gente mexesse um pouco na letra”. Quando chegou a hora, cumpri a promessa. Liguei, quis que a gente mexesse junto – mas ele preferiu me deixar a vontade para fazer as alterações. Foi assim que ficamos parceiros.

CALMA – Acabou ficando com este nome por causa do tempo que eu demorei para colocar a letra. Arthur Maia, grande baixista, me deu a música e o recado custou, mas saiu: “a liberdade é um pouco de tudo o que nos satisfaz”.

O SAMBA É A MINHA ESCOLA – Foi o meu primeiro samba como integrante da Ala de Compositores da Vila, tornei-me semifinalista com esta parceria com Claudio Jorge, Agrião e Paulinho da Aba. O enredo era Não Deixe o Samba Morrer e, como nenhum samba perdedor pode usar o título, rebatizei-o. Meu pai, desclassificado junto comigo, também gravou o dele, com o nome de Prece ao Sol.

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