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Posts Tagged ‘tom do saber’

Para quem perdeu a edição do projeto “Leitura Musicadas”, no Tom do Saber, na última sexta-feira, com o tema Nostalgia, aqui vai o conto de um grande amigo, Ricardo Sangiovanni, um dos textos lidos durante o evento:

A Ilha comprada

Braga, primavera – 2006

A revolução começará  em plena luz do dia, numa ilha comprada, com escritura e papel passado para o meu nome. Como esta, tantas incongruências foram as que ouvi sair da boca do meu pai. Desde sempre fora sempre sempre capaz de passar uma, duas, dez, dez mil, doze mil horas propagandeando seu plano para revolucionar o mundo. O plano não era nada sério, mas era bom – um tanto mais humano que o dos comunistas, um tanto menos mundano que o dos ultra-liberais. Um meio termo, com qualquer coisa de quase-anárquico. Incongruente: lindo, porém sem a menor sustentação teórica.

Teve efêmeras micro-existências (o plano), nas rodas de cerveja com os amigos, nas historinhas que ele me contava para dormir, nos monólogos que fazia para mim e para a mãe. Ele sempre empolgado, o dedo em riste tão peculiar dos políticos, dos demagogos, dos comentaristas das mesas redondas de futebol de domingo, dos honestos donos de loja botando para correr eventuais gatunos. O dedo em riste, o dedo em riste dos descobridores do Novo Mundo (supõe-se), dos torcedores do Santos xingando o treinador de burro; dos pais que educam e deseducam os filhos. O dedo em riste do primeiro homem da minha vida; a barba primeiro preta, depois cinza, depois branca. O dedo em riste, embora torto, do homem que por toda a vida chamei de pai. Inteligente, bem-feito. Um homem lindo. Até o último de seus dias, esteve lindo o meu pai.

Fui criada por ele sozinho, desde meus nove anos. Minha idade hoje não revelo, como bem faz toda mulher; já vou além dos trinta. E só: espero que isto minimize maiores especulações. Alguma atenção, se me quiserem doar, peço que o façam à nada incomum história que conto a seguir; nada especial, não fosse minha, a história.

Quando vim da China tinha por volta dos dezoito meses, não muito mais. Me exibia no colo – um trofeuzinho de rosto redondo, os olhinhos apertados todavida – a mulher a quem meses depois passaria inadvertidamente a chamar de mãe. Quem anos depois me abandonaria, a mim e a meu pai, numa manhã de domingo de sol. Sem Formula 1. Abandonaria, sim, mas disso não façamos um drama.

Uma mulher complicada a minha mãe. Aos doze, saíra de casa; lançada estava, para sempre, sem volta, como um vírus em curiosa simbiose na corrente sanguínea de um cão. Mundo-cão. Vira-latas, imundo. Ingrato. Injusto: o fora para com ela. Não compartilho, mas tanto compadeço-me disso que nunca me concedi o direito, pelo mínimo instante que fosse, de torna-la vítima de qualquer entre minhas mais espontâneas sentenças de condenação.

Porque condenada já  havia sido, já havia pago a pena letal tantas vezes, nos pegue-pagues primeiro de Barcelona, depois Murcia e mais não sei quantas cidades no caminho de quem sai da Espanha para a França e depois recruza a península até Portugal (pensem num caminho errante, de anos; pensem no que se pode considerar linear a quem pouco importa para onde ir depois de amanhã). Não tive tempo de ouvir dela os detalhes das histórias que me contou de passagem, antes de ir embora. Nunca insisti nos detalhes que ela me omitia – no fundo sentia que era por força da minha pouca idade. E tempo eu sabia que não nos iria faltar; meus ares de pequena sábia oriental desde cedo me traíram… Minha mãe foi embora e as perguntas que eu tinha, agora não passam de sementes para esses meus contos. Quase todos semi-escritos. Perguntas que proliferam-se em arquivos .doc, os títulos incertos, minhas vergonhas, minhas podas de mim. Inacabados. Impublicáveis os poucos acabados.

A mulher que sem escolha tomei por mãe era espanhola. Linda, os cabelos pretos muito pretos, nem sempre bem cuidados. Rebeldes (os cabelos). Rebeldes as vontades dela; dela herdei essa inquietude, essa violência contra o tempo, a força contrária que aprendi a exercer no ponteiro dos segundos, que simplesmente não me deixa querer ficar parada. Dela herdei o mal-hábito da ciesta; que parece preguiça, mas que no fundo é a astuta maneira espanhola de multiplicar as horas do dia. Entrecortado por uma boa dormida, um só dia espreme de si duas jornadas. Minha mãe acordava duas vezes por dia. Em cada uma das jornadas, trabalhava dobrado. Empregos foram tantos que enchem uma lista que não me espantaria se atingisse os cem: malabarista, entregadora de água, chofer de táxi, pizzaiola. Grafiteira, garçonete, DJ de festa infantil. Palhaça de circo, tradutora, acompanhante de palestrante, cozinheira de kebab… um rol que não termina.

Teve um fim de infância difícil. Adolescente, foi obrigada a pensar em conta de fim de mês, no troco que tinha que mandar para casa. Cuidar do irmão menor. Comer. Essas coisas. Cresceu mal-crescida. Por milagre terminou, três anos depois do prazo, um curso universitário de psicologia social, na França. Arranjou emprego, ganhou alguma grana. Mas cresceu mal-crescida. Virou mulher, casou-se duas vezes antes de conhecer o meu pai. Nunca saiu do limbo entre as idades mais complicadas da vida. Cresceu mal-crescida.

O primeiro casamento foi, até onde sei, um namorico. Um ano e pouca coisa mais, tempo só de arrumar e desarrumar as malas da mudança. Nunca teve muita coisa: todos os seus pertences sempre couberam em duas malas grandes. Nunca menos, nada mais. Casou-se de novo. Um francês. A este amou tanto e dele tão amiga se tornou que o casamento, depois de sete anos, desfez-se na curva precocemente descendente de um amor que envelhece; amores envelhecem, com isto concordo. Mas aos sessenta, não aos vinte e cinco.

Descasada do francês, conheceu meu pai numa noite banal, numa festa louca perdida por Portugal. Dele, então estudante de Língua e Cultura Portuguesa, herdei o idioma luso e a nacionalidade tropical. Da estranheza que sempre norteou os percursos de minha vida, creio que foi uma sorte que meu pai fosse brasileiro. Conheceram-se, os dois. Não mais que duas ou três noites de sexo de qualidade duvidosa, uma conversa semi-profunda, vários encontros entre esquinas e botequins. Meu pai queria revolucionar o mundo, aos 19. Minha mãe estudava chinês. Aos 30.

Do quase-ano que moraram na mesma cidade, este é o resumo pormenorizado. Minha mãe pretendia estudar ainda mais sete anos de chinês antes de se mudar para o oriente. Sete anos…

No ano seguinte já  estava instalada em Pequim. Com dois dias comprou uma bicicleta.

Com mais um ano na China, me comprou. A China não era nada daquilo que ela sonhava. Vivia de empurrar para trás os ponteiros do relógio. De cada segundo tirava um novo segundo. De cada dia mais um dia, de cada ano mais um ano. O ano seguinte seria sempre o ano do seu grande sonho. Seu grande sonho sempre mudava com o ano novo. Talvez não fosse assim tão grande. O tempo, mesmo dobrado, nunca lhe fora suficiente; multiplicá-lo sempre lhe fora possível (é possível, sim!); difícil era encontrar, entre o esforço que fazia para multiplicá-lo, alguma sobra de dia para ter, de fato, um grande sonho.

Sonhou com a China e lá foi parar. Sonhou não com a China, mas com algo que fosse diferente de tudo o que já tinha visto. Queria brilho, a tinta fresca de um cenário novo. Queria um pano de fundo chinês, vermelho e negro, enfeitado com dragões dourados. Só não sabia encenar outro esquete. Quis ir à China, à China foi. À China levou sua energia de vida, os velhos calos, as velhas confusões inconfessadas. Da China me trouxe nos braços, comprada a um casal enraivecido por ter sua quarta filha mulher. Me comprou barato, me trouxe como um troféu. Se mudou para o Brasil – sonhava agora em reencontrar aquel tio listo. El revolucionario, el guapo. Me trouxe para Santos. Bateu na porta do meu pai (até hoje ele não sabe como ela arrumou o endereço). Vine para quedarme.

Fica, então. Meu pai fazia mestrado. Tinha bolsa mas completava a renda trabalhando para um livreiro que tinha um sebo no shopping. Seu Eduardo, um barbudo. Boa gente, boa conversa. Não tinha ninguém (meu pai), mas tinha vontade de ter alguém. Aceitou, na melhor performance de sua generosidade, aquela espanhola maluca com um bebê chinês no colo. Minha mãe era muito mais velha que ele, mas como mulher nunca foi de se jogar fora – muito pelo contrário. Juntaram-se.

Nesta casa me criei, uma menina feliz até onde me lembro. Por vezes era duro saber não ser filha de um grande amor. Mas melhor assim: sempre soube sobre mim a verdade, e por isso sou muito grata aos meus pais. Meu pai, então, deu a essa minha cara oriental os ares de sabedoria que todos me dizem que tenho, hoje. Vivia incentivando minhas aventuras, meus desejos mais impossíveis. Eu e ele éramos, antes de pai e filha, dois grandes amigos. Herdei além do idioma, o gênio criativo, o gosto pelos livros, pelos esportes. Os sonhos. Nossa relação era divertida, educada, encaixada. Éramos duas crianças, dois amigos, dois adultos. Numa alternância contínua, numa sincronia da qual só nós tínhamos o ritmo. A figura de minha mãe resumia-se à imagem de uma gerente da casa, uma espécie de governanta: tinha doçura – me deu tanta doçura! –  mas nada que se aproximasse da doçura de uma mãe. Parecia não haver lugar para ela ali, entre meu pai e eu. Entre a intimidade entre meu pai e eu.

Não havia. Foi embora no dia em que completei nove anos.

Não fugiu nem deixou bilhete. Saiu pela porta da frente, sem dar muitas explicações, com as duas malas de sempre. Víamos o vôlei de praia na TV. Me deu um beijo demorado, um abraço forte. Feliz cumple, mi chinita. Beijou meu pai na testa, molhou-a com a clássica lágrima solitária. Ninguém senão ela conseguiria fazer uma coisa daquelas com tamanha serenidade. Parecia bem, em parte triste, mas sobretudo bem, bem convencida, quase hipnotizada pela idéia que seguro já vinha maturando meses antes de partir.

Nunca mais voltei a vê-la. Tantos anos sem chama-la de mãe, sem senti-la como mãe; mãe-ausente que fosse… nada. Não voltei a vê-la até hoje, até agora. Trancada aqui no escritório, acabo de vê-la, pela janela, descendo do carro. Gosto do corte do vestido preto – os anos lhe deixaram muito da antiga exuberância.

Meu pai morreu ontem, na madrugada. Na cama do hospital ainda me fez uma última piada. O dedo em riste, torto. Ri chorando.

Um discreto velório acontece agora na sala. Não quero ver ninguém. Não sou da família, não sou neta nem sobrinha nem prima nem tia de ninguém. Não me pareço com nenhum deles. Devo chamar minha mãe de mãe? Não quero. Sou filha de meu pai – me basta.

Vou embora. Viajar para a China, quem sabe.

Vou começar a revolução.

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A próxima edição do projeto “Leitura Musicadas”, no Tom do Saber, dia 31 deste mês, trará o tema Nostalgia, com a leitura de um conto de um grande amigo. Tá dito!

DIREÇÃO: KARINA ALLATTA E THAIS ALVES

SELEÇÃO DOS TEXTOS: KARINA ALLATTA E THAIS ALVES

ARTISTAS: MARITA VENTURA E ALICE BARRETO

MUSICISTA: SUZANA BELLO


AUTORES: POEMA
DE ALBERTO CAEIRO E CONTO DE RICARDO SANGIOVANNI.
LOCAL: TOM DO SABER
HORA:20:00

ENTRADA FRANCA

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